'Falar em Samuel Paty ainda é um tabu', diz aluna de professor francês morto por extremista islâmico

Iniciado por noticias, 12Março2021, 15:01

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'Falar em Samuel Paty ainda é um tabu', diz aluna de professor francês morto por extremista islâmico

A jovem Ambre e sua mãe revelam como a família superou o trauma de um atentado terrorista e lembram detalhes daquele 16 de outubro, data que muitos franceses também não conseguem esquecer. 'Eu sou professor', diz cartaz levantado por manifestante no domingo (18) em Paris, na França, durante protesto contra o assassinato de Samuel Paty
Charles Platiau/Arquivo/Reuters
"Eu estava em casa, mas meus amigos estavam perto da escola. A polícia estava no local e disse para eles irem o mais longe possível porque havia um homem armado", conta Ambre Amiot, de 14 anos.
"Meus amigos ficaram com medo, começaram a correr e foi então que chegaram as informações e eles perceberam que era o homem que havia assassinado o senhor Paty", lembra a estudante.
Catherine Amiot, a mãe da adolescente, assistia televisão quando a filha veio à sala, aflita, pedindo para ligar o noticiário porque algo havia acontecido em sua escola.
"Ela acabava de ser informada por uma colega que um de seus professores tinha sido morto. E ela imediatamente me disse: 'estou certa de que é o professor de história e geografia' porque há uma semana ele mostrou charges que não agradaram a uma aluna, e que essa aluna, aparentemente, contou a história para a sua família, que também não gostou", diz.
Conheça cinco pontos sobre Samuel Paty, professor que foi decapitado na França
Paty pode ter morrido por uma mentira
A tragédia voltou às manchetes da França esta semana com a revelação pela imprensa de que a estudante de 13 anos, na origem da polêmica que resultou na morte do professor, mentiu.
De acordo com o jornal "Le Parisien", que teve acesso ao depoimento da adolescente ao juiz antiterrorista, no mês de novembro, ela mudou sua versão inicial e confessou que não esteve na aula sobre liberdade de expressão na qual foram mostradas as caricaturas do profeta Maomé.
Manifestante exibe foto do professor Samuel Paty, decapitado nos subúrbios de Paris, na França. Foto de manifestação em Lille em 18 de outubro
François Lo Presti/AFP
A jovem havia provocado um forte escândalo ao acusar Paty de islamofobia.
Ela primeiramente contou ao pai e depois à polícia que o professor exigiu que os alunos muçulmanos saíssem da aula durante a apresentação das imagens. Em sua primeira versão dos fatos, a garota disse que se recusou a deixar a sala de aula e, após um bate-boca com Paty, foi expulsa.
Um vídeo divulgado pelo pai da jovem acusando o professor Paty de islamofobia e informando seu nome e local de trabalho viralizou nas redes sociais. Pouco depois, um jovem extremista decapitou o professor na saída da escola.  
"Há muitos professores que ficaram bastante impactados pela morte de Samuel Paty e que ficaram meses sem ir ao colégio, alguns ainda não retornaram. Nós tentamos voltar a uma vida normal, mas ainda é um tabu falar em Samuel Paty" diz a estudante Ambre Amiot.
"Eles colocaram uma grade em frente ao colégio e há rumores de que a diretora ainda sofre ameaças", acrescenta.
A mãe dela lamenta. "Após o assassinato de Samuel Paty, o colégio tem barreiras a mais e elas não são psicológicas, mas físicas, que foram construídas no entorno do colégio para a proteção de potencial ameaça futura. É uma pena termos chegado a esse ponto, mas é o que acontece", completa.
'Decapitar faz parte de outra época'
A investigação apontou que o assassino de Samuel Paty era um jovem refugiado checheno. Abdullakh Anzorov, de 18 anos, foi morto pela polícia minutos depois do ataque.
"Decapitar um homem é um ato fora do comum. Eu vou fazer 50 anos e nunca vi isso na vida. É algo inimaginável, impensável", observa Catherine. "Decapitar faz parte de um outro mundo, de uma outra época e de um outro tempo. Estamos no século XXI e decapitamos pessoas? Na França, ainda por cima?", pergunta indignada a mãe da adolescente.
Ambre, que perdeu um professor cruelmente assassinado, se diz determinada a lutar por mudanças. "Eu acredito que tem que lutar.Para mim, uma religião não pode prejudicar uma outra pessoa", afirma.
A jovem diz ainda não entender por que razão Samuel Paty se tonou alvo dos extremistas.
"Ele era um professor, não fez nada além de nos ensinar, nos ensinar os direitos humanos, o que eu acho importante aprender. Quando eu estava no 8° ano, vi as caricaturas e não me aconteceu nada. Há muitos anos ele mostrava as mesmas caricaturas e o programa também era o mesmo há vários anos. E só agora aconteceu isso", diz, ao citar as charges do profeta Maomé que foram mostradas em sala de aula e acabaram gerando a ira dos radicais islâmicos.
Apoio psicológico foi fundamental
A mesma internet que disseminou conteúdo da vida privada do professor, também espalhou as suas últimas imagens. "Muitas pessoas tiveram crises por causa das fotos da morte de Samuel Paty que foram compartilhadas. Eu tenho amigas que tiveram pesadelos", conta Ambre.
Para ela, o apoio recebido na escola foi fundamental. "Tivemos muito apoio psicológico. Enfermeiras e psicólogos vinham ao colégio para qualquer situação porque muitas vezes os estudantes desabavam em sala de aula e começavam a chorar sem motivo. E eles eram encaminhados ao psicólogo por causa do professor Paty. Algumas pessoas diziam ter visto homens rondando o colégio, mas não havia nada. No início foi bem duro", relata.
"Como mãe de aluna, isso me choca muito. As imagens que foram exibidas na televisão eram sóbrias em relação às imagens que haviam nos telefones dos alunos, nas redes sociais. E isso foi realmente chocante. Essas famosas fotos com um cadáver na rua. E pessoas, crianças, viram essas imagens. Isso é o mais chocante, observa Catherine Amiot.
"O suporte psicológico foi essencial. A minha filha não foi particularmente afetada porque nós conversamos bastante com ela. Mas eu sei que certos alunos foram muito afetados porque viram essas imagens que circularam e eles poderiam, potencialmente, estar presentes no momento em que tudo aconteceu", observa. "Muitos alunos têm medo, dormem mal, ainda tem pesadelos e é difícil para eles vir à escola livremente," completa.
Morto por encarnar a República
Um tributo nacional a Samuel Paty foi realizado dias após o crime, na Universidade de Sorbonne. O local foi escolhido por ser um templo do saber. Em seu discurso, na ocasião, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que Paty foi "morto porque encarnava a República e a liberdade".
Presidente da França, Emmanuel Macron, assiste à passagem do caixão com o corpo de Samuel Paty, professor decapitado por extremista, durante homenagem pública em Sorbonne nesta quarta-feira (21)
François Mori/Pool via Reuters
O professor foi condecorado com a Medalha da Ordem Nacional da Legião de Honra, que recompensa méritos de militares e civis na França. Ele também recebeu o título póstumo de Comendador da Ordem das Palmas Acadêmicas, o mais alto galardão oferecido a funcionários do ensino médio e superior. 
O ataque na escola em Conflans-Sainte-Honorine chocou a França e provocou uma onda de manifestações pelo país. Apesar da pandemia, os franceses se uniram numa demonstração de solidariedade e preservação dos valores republicanos, realizando marchas em várias cidades.
Laicidade na escola
Catherine Amiot, a mãe de Ambre, diz que a solução para o problema já é conhecida. A escola laica é uma das maneiras de "proteger as crianças de influências", afirma. "Nós não vamos à escola para falar de religião. Cada um tem a sua religião. Mas não devemos mostrá-la na escola. A escola é feita justamente para que as pessoas aprendam a se preservar de tudo isso", explica a gerente de recursos humanos.
Na época do crime, educadores de toda a França expressaram a sua indignação e refutaram a autocensura sobre a liberdade de expressão dentro das escolas.A laicidade tem sido a base do sistema educacional francês desde o fim do século XIX.
O secularismo é um princípio político que rejeita a influência da Igreja na esfera pública do Estado, considerando que os assuntos de cunho religioso pertencem à esfera privada dos indivíduos.
"Ninguém deve pensar que uma religião é mais importante do que a outra. A escola é feita para isso, a escola é laica na França e espero que continue assim", diz Amiot. "Essa é uma lei. Comecemos aplicando as leis que já existem antes de criarmos novas leis".
Projeto de lei contra islamismo radical passa em primeira votação
A observação é feita no momento em que a França tenta reforçar seus princípios republicanos para lutar contra o separatismo e o islamismo radical. O governo conseguiu uma vitória ao aprovar na Assembleia Nacional, em primeira instância, um projeto de lei contra o extremismo religioso.
O governo francês quer mais transparência sobre verbas de financiamento de locais de culto e tenta evitar o controle de mesquitas por extremistas. A nova lei ainda proíbe a emissão de certificados de virgindade, poligamia e casamentos forçados.
O primeiro-ministro francês, Jean Castex, explicou que não se trata de estigmatizar os muçulmanos e que o texto "não é contra as religiões", mas sim contra a "ideologia perniciosa" do "islamismo radical". "É uma lei de emancipação frente ao fundamentalismo religioso", disse ele, à época da votação.
Outra prioridade do governo é combater o ódio na internet e a difusão de informações relativas à vida privada das pessoas e que possam colocá-las em risco. Antes de morrer de forma trágica, o professor Samuel Paty foi vítima de perseguição online, logo após ele ter mostrado as caricaturas de Maomé.
No total, 14 pessoas foram indiciadas na investigação do assassinato de Samuel Paty. Entre os suspeitos, estão Brahim Chnina, pai da aluna responsável pela campanha para difamar o professor, e o ativista islâmico que o apoiava, Abdelhakim Sefrioui.
Seis estudantes também foram indiciados, incluindo cinco por "cumplicidade em assassinato terrorista", acusados ​​de ajudar Abdoullakh Anzorov a identificar o professor.
Ao aprofundar o princípio da neutralidade do Estado e impor medidas para combater a disseminação de mensagens de ódio nas redes e para trazer mais transparência aos locais de culto, o pacote de leis em exame no Parlamento francês é uma resposta do Executivo aos atentados ocorridos recentemente no país.
Retrospecto sangrento
Charge revista satírica francesa Charlie Hebdo
CHARLIE HEBDO / AFP
Apesar de a França ter serviços especializados em investigações antiterroristas, nada conseguiu impedir o atentado ao jornal satírico "Charlie Hebdo", em janeiro de 2015, que resultou na morte de 12 pessoas, entre elas alguns dos principais cartunistas da publicação.
A polícia também não conseguiu evitar os ataques contra a casa de espetáculos Bataclan e outros alvos que resultaram em mais de uma centena de mortos, em novembro do mesmo ano; ou quando um caminhão atropelou dezenas de pessoas na Promenade des Anglais, em Nice, em 14 de julho de 2016, deixando um rastro de 84 mortes.
Em setembro de 2020, quando a França julgava onze acusados de cumplicidade no atentado que dizimou a redação do "Charlie Hebdo", um outro ataque com arma branca deixou dois feridos, perto da antiga redação da revista satírica.
Do Bataclan a Samuel Paty: relembre outros ataques na França
 Cerca de um mês depois, em 29 de outubro, um atentado a faca na basílica de Notre-Dame de Assunção, em Nice, deixou três mortos, entre eles a brasileira Simone Barreto Silva. Um tunisiano de 21 anos, que havia chegado pouco tempo antes ao país, foi apontado como o autor das agressões. A baiana, mãe de três filhos, entrou para a lista de centenas de vítimas do terrorismo nos últimos 5 anos na França.
Todos temos medo de atentados", lamenta Catherine Amiot. "Há pouco mais de quinze anos, nós não tínhamos medo de sair à noite, não tínhamos medo de fazer festa, de falar de religião. Hoje é impossível falar de religião livremente. Simplesmente por medo de chocar. Nós temos medo de chocar os outros. Tem que ter cuidado com os muçulmanos, os judeus, os católicos. Finalmente, onde está a nossa liberdade?", pergunta.
"Seja Nice, 'Charlie Hebdo', State de France, são atentados. São pessoas que não pediram para morrer assim, em mortes trágicas. Na França nós não estamos acostumados aos atentados. Mas hoje é algo que quase entrou para a normalidade. Isso é duro", lamenta Catherine.
"Eu penso que é preciso avançar, não podemos ficar presos no passado, tem que avançar na vida. E apenas esperamos que isso nunca mais se repita", conclui Ambre, ex-aluna de Paty.
Alvo de muitas discussões no Parlamento, o projeto de lei contra o islamismo radical divide aqueles que o acham insuficiente, aqueles que temem uma estigmatização dos muçulmanos ou os que o consideram um primeiro passo rumo ao bom senso e o convívio sadio nas escolas. O texto será examinado pelo Senado francês, a partir de 30 de março.

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