Qual a influência do neonazismo e da extrema direita na Ucrânia e na Rússia?

Iniciado por noticias, 25, Março, 2022, 07:20

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Qual a influência do neonazismo e da extrema direita na Ucrânia e na Rússia?


   Existe neonazismo dentro da Ucrânia? Qual é o papel de milícias de extrema direita dentro do país? E o Estado ucraniano apoia e é apoiado por essas ideologias? 20/02 - Civis estudam armas durante uma sessão de treinamento do grupo de direita ucraniano Right Sector em um parque da cidade em Kiev, na Ucrânia, em fevereiro
Efrem Lukatsky/AP
Um dos argumentos centrais do presidente russo Vladimir Putin para justificar a invasão da Ucrânia é o objetivo de "desnazificar" o país. Apoiadores da Ucrânia rejeitam essa acusação e contra-argumentam que o presidente, Volodymyr Zelensky, é judeu.
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Em meio à guerra, o papel da extrema direita dentro da Ucrânia tem sido tema de constantes debates — e também de propaganda de diferentes lados no conflito.
Afinal, existe neonazismo dentro da Ucrânia? Qual é o papel de milícias de extrema direita dentro do país? E o Estado ucraniano apoia e é apoiado por essas ideologias? Existe extrema direita na Rússia?
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Existe ideologia de extrema direita dentro da Ucrânia?
Sim. As autoridades ucranianas e aliados estrangeiros — como Estados Unidos e países europeus — costumam negar a importância de movimentos neonazistas e de extrema direita na política interna da Ucrânia, mas esses grupos existem.
Essa questão continua sendo altamente sensível, evitada por políticos e pela imprensa. Ninguém quer fornecer combustível para a máquina de propaganda russa, que costuma ressaltar — e por vezes exagerar — o papel desses grupos na política ucraniana.
Um dos movimentos que mais ganharam destaque neste conflito é o chamado Batalhão de Azov, um grupo neonazista que em 2014 combateu a invasão russa da Crimeia na cidade de Mariupol. O grupo vem lutando contra separatistas russos na região desde então e tem desempenhado um papel importante na resistência ucraniana.
Na semana passada o Batalhão de Azov (cujo nome é uma referência ao mar de Azov, uma região ao norte do mar Negro), reivindicou a autoria da morte de um general russo, Oleg Mityaev. O Batalhão é uma unidade da Guarda Nacional da Ucrânia, a polícia militar do país.
Na prática, o grupo se transformou em uma milícia de guerra nos últimos anos, cujo maior inimigo são os russos. O Azov é criticado por exibir símbolos nazistas, como o Wolfsangel, usado pela 2ª Divisão Panzer SS Das Reich, e o Sol Negro.
Há também outros grupos considerados de extrema direita por especialistas, como o Partido Svoboda, o C-14 e o Pravyi Sektor (Setor de Direita), que montaram suas próprias milícias armadas, muitas das quais passaram a integrar forças regulares ucranianas.
Nos últimos anos, antes do conflito na Ucrânia, a BBC fez reportagens sobre como esses grupos vêm assumindo um papel crescente no cotidiano dos ucranianos, se aproveitando de vácuos de poder deixados por outras instituições, como a polícia.
 Dmytro Yarosh (centro), um dos líderes do movimento Right Sector discursa no centro de Kiev nesa sexta-feira (21)
Reuters/David Mdzinarishvili
Em 2017, a BBC mostrou milícias de extrema direita invadindo estabelecimentos de jogos de azar e agredindo inimigos políticos com a conivência dos governos. Na cidade de Cherkasy, milicianos de extrema direita invadiram a câmara dos vereadores da cidade e ameaçaram todos os parlamentares — dizendo que nenhum deles poderia sair dali até que o orçamento proposto pelo prefeito fosse aprovado. Também houve embates violentos entre os milicianos e a polícia.
A Ucrânia foi altamente afetada pelo embate entre nazismo e comunismo durante a Segunda Guerra Mundial. Diversas regiões foram ocupadas por tropas nazistas durante a Operação Barbarossa, de 1941. Antes disso, sob o regime soviético de Joseph Stalin, a Ucrânia havia enfrentado a crise de Holodomor.
Durante a guerra, os ucranianos viveram divididos entre colaborar com nazistas alemães ou com comunistas vindos da Rússia. Uma das figuras mais proeminentes — e controversas — desse nacionalismo colaboracionista ucraniano foi Stepan Bandera, que primeiro atuou para facilitar o domínio dos nazistas na região e depois se voltou contra eles, quando percebeu que seu plano de independência da Ucrânia não se concluiria.
Bandera passou anos em um campo de concentração nazista e acabaria assassinado por um agente da KGB em 1959. 
A Ucrânia também é marcada pelo massacre de Babi Yar, quando forças da Alemanha nazista mataram os mais de 33 mil judeus que viviam em Kiev, colocando os corpos em uma vala comum. O massacre, ocorrido em 29 e 30 de setembro de 1941, é tido por historiadores como um dos maiores da história do Holocausto. Após a guerra, os soviéticos proibiram a construção de monumentos de memória no local.
Qual a participação da extrema direita no governo ucraniano?
Os grupos de extrema direita estão mobilizados contra a invasão russa, mas desempenham um papel pequeno na política ucraniana, e não há vínculos comprovados deles com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Mas no passado recente, houve preocupações sobre ligações entre os milicianos de extrema direita e o então ministro do Interior, Arsen Avakov. Em 2017, Avakov indicou para o cargo de vice-ministro um notório líder do Batalhão de Azov, Vadym Troyan. Troyan foi demitido do cargo em 2019 e Avakov renunciou ao ministério no ano passado.
A suposta influência de neonazistas no governo ucraniano é um dos pontos cruciais apontados por Putin para sua invasão. No passado recente, durante a revolução de 2014, o Batalhão de Azov apoiou a derrubada do presidente ucraniano Viktor Yanukovych, aliado de Putin.
Apesar de haver uma influência da extrema direita na política ucraniana, ela continua sendo uma pequena minoria no país — durante as eleições de 2019, candidatos e grupos de extrema direita, como o Svoboda, ficaram muito abaixo do mínimo de 5% necessário para entrar no parlamento.
Especialistas em tecnologia acusam o governo de Moscou de orquestrar uma campanha de desinformação nas redes sociais em cima do temor internacional em relação a esses movimentos de extrema direita.
Desde novembro passado, houve picos de pesquisas sobre reportagens que ligam a Ucrânia ao nazismo, de acordo com a Logically, uma empresa de tecnologia que acompanha centenas de contas de mídia social pró-Kremlin.
A Rússia é "rápida em rotular seus adversários e vítimas na Europa como nazistas", diz Keir Giles, especialista que escreveu um relatório da Otan sobre sua guerra de informação. "Vimos isso não apenas na Ucrânia, mas também na difamação russa dos estados bálticos", diz ele.
Como a guerra está impactando a extrema direita na Ucrânia?
Alguns analistas indicam que a invasão da Ucrânia pode até estar beneficiando grupos de extrema-direita dentro e fora da Ucrânia — que estão se fortalecendo com o recrutamento de combatentes.
No centro de Kiev, na Ucrânia, pessoas fazem fila para se voluntariar em um batalhão iniciado por um grupo de extrema direita, em 24 de fevereiro de 2022
Sergei Supinsky / AFP
"O conflito claramente criou uma oportunidade para os extremistas recrutarem combatentes estrangeiros da supremacia branca que buscam treinamento e redes ou buscam intensificar seu envolvimento com a causa de outras maneiras", escreveu em um artigo recente a pesquisadora Cynthia Miller-Idriss, diretora do Polarization and Extremism Research Innovation Lab (PERIL), da American University.
"Líderes de milícias de extrema direita na Europa responderam à invasão russa da Ucrânia levantando fundos online, recrutando combatentes e planejando viagens para as linhas de frente, atividades que o SITE Intelligence Group descreveu como um 'enorme de apoio à Ucrânia' de 'numerosos grupos nacionalistas e neonazistas brancos de direita' em toda a Europa e América do Norte."
O jornalista ucraniano Lev Golinkin diz que as pessoas precisam conciliar duas posições que podem parecer contraditórias: a de que a Ucrânia possui sim grupos de extrema direita que são perigosos, mas que esses grupos não podem servir como desculpa para Putin invadir a Ucrânia.
"Isso não dá à Rússia nenhuma razão, nenhuma justificativa, para invadir um centímetro do território ucraniano. As duas coisas são verdades ao mesmo tempo. O que precisamos fazer nos EUA é condenar e lutar contra a Rússia, ao mesmo tempo em que nos certificamos de que não temos extremistas que viajam e treinam com neonazistas ucranianos", disse Golinking ao programa Democracy Now.
"Alguém sempre se beneficia de uma guerra. E a extrema direita da Ucrânia é o principal beneficiado do lado ucraniano desta guerra, porque agora eles conseguem atrair pessoas de todo o mundo e são vistos como na linha de frente da luta pela civilização branca."
Qual é o envolvimento da Rússia com a extrema direita?
O governo russo é constantemente acusado de fomentar grupos neonazistas e de extrema direita em países ocidentais. Em 2020, a BBC revelou que Rinaldo Nazzaro, fundador do grupo neonazista americano A Base, coordenava a organização a partir de um apartamento em um bairro rico na cidade de São Petersburgo, na Rússia. A Base é alvo de investigações de terrorismo do FBI.
O pesquisador Robert Horvath, da La Trobe University de Melbourne (Austrália), afirma que enquanto Putin fala em "desnazificar a Ucrânia", o presidente russo "cultiva seus próprios nazistas".
Em um artigo recente no site The Conversation, o pesquisador diz que o Kremlin possui ligações com o Russkii Obraz, um grupo neonazista que passou a frequentar debates televisivos na mídia altamente controlada pelo governo. Nos últimos anos, o governo de Putin se distanciou do grupo, mas alguns de seus integrantes seguem com influência na vida política do país.
Para Alexander Verkhovsky, diretor do Centro SOVA, uma consultoria independente de Moscou, Putin busca manter um "monopólio" sobre o nacionalismo no país, e por isso ele não tolera muitos movimentos políticos independentes de extrema direita, mesmo quando estes também apoiam o nacionalismo russo.
"Certamente, ele [Putin] é um nacionalista, um crente em um estado forte, mas esse tipo de nacionalismo é completamente monopolizado pelo governo... O governo não aceita a formação de qualquer tipo de organização, mesmo aquelas que são semelhantes", disse Verkhovsky em entrevista para a BBC Monitoring.
Um dos problemas para Putin é que alguns desses radicais adquiriram experiência de combate na região do Donbass, e que isso poderia ser útil contra Putin, caso houvesse algum dia uma dissidência grande contra o governo.
"Não resta quase nada do movimento [nacionalista]. Eles não têm seu próprio espaço na arena política."
Verkhovsky acredita que, ao contrário dos ativistas que foram presos ou pressionados, Putin não é um nacionalista étnico. O objetivo de Putin é unir a nação contra "inimigos externos", disse ele.
Veja vídeos para entender o conflito entre Rússia e Ucrânia

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