Sem emprego na pandemia, professores de Uganda viram fabricantes de caixão

Iniciado por noticias, 16, Outubro, 2021, 01:14

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Sem emprego na pandemia, professores de Uganda viram fabricantes de caixão

Professor de matemática, Livingstone Musaala passou a fazer e negociar unidades por preços acessíveis e chegou a vender dez caixões por dia no auge da pandemia. Com baixos salários, alguns educadores não pretendem mais voltar às salas de aula mesmo quando escolas reabrirem.  Professores primários Paul Kasadha (esquerda) e Mwadha Musa trabalham fabricando caixões em sua oficina em Namutumba, Uganda, em foto de 6 de setembro
Badru katumba/AFP
Quando a Covid-19 provocou o fechamento de escolas em Uganda, Livingstone Musaala abriu mão de seu trabalho como professor de matemática para se dedicar à construção de caixões em valor acessível para os moradores em luto de seu povoado.
A escolha rendeu-lhe críticas e censuras, até mesmo de sua própria família, que o acusou de se aproveitar da dramática situação em sua cidade de Bugobi, cerca de 140 quilômetros a leste da capital Kampala.
"Entre todas as ideias de negócios, você escolhe vender caixões, como se quisesse a morte da pessoas?", condenou um parente, lembra o professor de matemática.
Livingstone Musaala, professor da Bulange Nursery and Primary School, trabalha fabricando caixões em sua oficina em Namutumba, Uganda, em foto de 6 de setembro
Badru katumba/AFP
Sem salário, Musaala logo se deu conta de poderia fazer caixões a preços consideravelmente mais baixos do que os valores exorbitantes cobrados pela maioria dos lugares, diante da explosão da demanda causada pela pandemia.
"Não foi uma decisão fácil, mas as pessoas me dão o reconhecimento agora", diz este pai de dois filhos, de 28 anos.
Seus vizinhos de Bugobi não precisam mais percorrer longas distâncias para encontrar caixões a preços razoáveis.
Professores primários trabalham fabricando caixões em sua oficina em Namutumba, Uganda, em foto de 6 de setembro
Badru katumba/AFP
"No pico da pandemia, os negócios iam bem, vendíamos dez caixões por dia", conta este novo marceneiro, que vende seus produtos por entre 150 mil a 450 mil xelins de Uganda (US$ 41,7 - ou R$ 230 - a US$ 125, cerca de R$ 690).
Seu sucesso atraiu outros 30 professores, que estavam na mesma situação. E, assim como ele, a maioria não quer voltar para a sala de aula, mesmo que as escolas reabram.
Sistema escolar em xeque
Esta insatisfação ameaça o sistema escolar deste país da África Oriental, já muito castigado pelas consequências econômicas e sociais da pandemia.
O professor primário Salakam Abdul trabalha fabricando caixões em sua oficina em Namutumba, Uganda, em foto de 6 de setembro
Badru katumba/AFP
Cerca de 15 milhões de alunos deixaram de ir à escola, após o fechamento das instituições de ensino públicas, em março de 2020.
Algumas associações temem que isso tenha levado a um aumento da gravidez entre adolescentes e do trabalho infantil.
Sem receita, algumas escolas foram transformadas em hotéis, ou restaurantes. Outras se afundam em dívidas, incapazes de pagar seus empréstimos há meses, o que torna ainda mais incerta a remuneração dos professores que retomarem suas atividades.
Livingstone Musaala, professor da Bulange Nursery and Primary School, trabalha fabricando caixões em sua oficina em Namutumba, Uganda, em foto de 6 de setembro
Badru katumba/AFP
Em média, um professor de uma escola particular em Bugobi ganha entre US$ 98,5 e US$ 255 por mês (R$ 543 a R$ 1400, em média).
"Entre a educação e a carpintaria, fico com a carpintaria, porque paga bem", disse Godfrey Mutyaba à AFP.
"Adoro ensinar, mas, com meu salário baixo, não voltaria", acrescenta.
Livingstone Musaala também decidiu que não vai mais dar aula. Embora a pandemia agora tenha diminuído, após um surto em junho e julho, ele continuará como carpinteiro. Seu objetivo é diversificar sua oferta com a fabricação de móveis.
"A Covid-19 me ensinou que existe vida fora do ensino", diz ele.
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