Primeiros indígenas refugiados em Campinas vivem conflitos culturais e desafiam gestão

Iniciado por noticias, 09Março2020, 21:06

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Primeiros indígenas refugiados em Campinas vivem conflitos culturais e desafiam gestão


   Waraos saíram da Venezuela e começaram a chegar ao município há 15 dias. Em respeito às normas da etnia, grupos recusam ajuda da prefeitura e há alguns casos de mendicância. Primeiros indígenas refugiados em Campinas vivem conflitos culturais
Bárbara Brambila/G1
O pedido de ajuda de uma família de indígenas refugiada da Venezuela desperta atenção de quem, em meio à confusão vertiginosa de sons, caminha pela principal área do comércio do Centro de Campinas (SP). Pai, mãe e filho são parte de dois grupos da etnia warao que chegaram neste mês ao município em busca de trabalho e provocam um desafio para a gestão municipal devido aos conflitos culturais.
Campinas registra pela primeira vez a presença de imigrantes indígenas. O primeiro grupo é formado por 16 pessoas e foi identificado pela prefeitura há cerca de 15 dias; enquanto que o segundo, localizado há uma semana, possui seis integrantes. Veja abaixo motivos do impasse.
O ambiente
Família da etnia Warao chama a atenção e recebe doações no Centro de Campinas
Bárbara Brambila/G1
O G1 foi até a Rua Treze de Maio, em Campinas, para conversar com uma família em situação de mendicância. Ela deixou Tucupita, cidade de Delta Amacuro, e está no Brasil há quase um ano.
Por isso, se comunica bem em português com a reportagem, apesar de falar a língua warao.
"Chegamos por Roraima e já passamos por muitas cidades, sempre em busca de trabalho para mandar dinheiro para a nossa família. Deixamos a Venezuela por não conseguirmos mais plantar em nossas terras e nem outro emprego", conta Osomel Rattia.
Ele está com a esposa, o filho de 6 meses, além dos pais e irmão. Pedestres que se aproximam da família doam dinheiro, e ONGs ajudam com roupas, fraldas e comidas. A família está hospedada em um hotel da região e as estadias, segundo eles, são pagas com o dinheiro arrecadado nas ruas.
Mãe e irmão de Rattia também estão em situação de mendicância
Bárbara Brambila/G1
Segundo a prefeitura, waraos - "Povo da água", na língua nativa - é um grupo étnico constituído originalmente há pelo menos 8 mil anos na região delta do Rio Orinoco. Atualmente, os waraos são a segunda maior etnia da Venezuela, com 49 mil pessoas subdivididas em centenas de comunidades.
Qual é o impasse?
Os serviços ofertados pela administração aos grupos são os mesmos oferecidos aos imigrantes não-indígenas, considerando-se moradia, saúde e alimentação. O impasse é que os membros da etnia têm hábitos culturais específicos, desconsiderados pelos protocolos existentes do governo. Veja alguns hábitos deles abaixo:
Não se separar da família
Os primeiros waraos chegaram a Campinas em situação de rua, diz a prefeitura. Os integrantes foram abordados e encaminhados ao abrigo municipal, mas deixaram o local após dois dias. A prefeitura explica que eles optaram por seguir para Hortolândia (SP), onde foram acolhidos por uma igreja.
"No abrigo tem alas de homens, mulheres e crianças, e a separação familiar é inegociável para os waraos", explica o diretor do Departamento de Direitos Humanos de Campinas, Fábio Custódio.
Não comer comidas feitas por pessoas que não são da etnia
Ainda de acordo com o diretor, equipes do governo abordaram também integrantes do segundo grupo, que continua na cidade.
Os profissionais, segundo Custódio, tentaram levar os indígenas para comer no Bom Prato, programa que oferece refeições a pessoas de baixa renda, mas eles recusaram com a justificativa de que não se alimentam de comidas feitas por quem não pertence aos waraos.
Busca por novos protocolos
Ao G1, Custódio alegou que a prefeitura realiza reuniões com representantes das áreas de Assistência Social, Direitos Humanos, Saúde e Conselho Tutelar, além do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), para estabelecer novos protocolos de atendimento aos waraos.
Apesar das tentativas, entretanto, até o momento não foram criados métodos de acolhimento que respeitem a cultura da etnia. Isso ocorre porque, segundo o diretor, os indígenas querem dinheiro, ajuda para ir a Brasília (DF) ou à Venezuela, ou ajudar parentes que estão em Roraima ou outro país.
"Não parece ser possível nenhuma adaptação, tendo em vista as tipificações em uso. Estamos mantendo contato com Acnur e também com pesquisadores que conhecem os waraos, que poderão nos abrir alguma expectativa de melhor adequação", diz Custódio.
O diretor Fábio Custódio diz que a prefeitura está em busca de alternativas para acolher os indígenas.
Luiz Granzotto/Prefeitura
Segundo Luiz Fernando Godinho, porta-voz da Acnur no Brasil, em Pacaraima e Boa Vista (RR), Manaus (AM) e Belém e Santarém (PA), o atendimento à etnia inclui a criação de abrigos específicos para esta população.
"Os espaços são equipados com redes em vez de barracas, por exemplo. As famílias são mantidas nos mesmos espaços e os waraos preparam suas próprias comidas", conta.
O porta-voz ressalta, contudo, que as ações seguem o modelo da força-tarefa logística e humanitária "Operação Acolhida", um contexto diferente da solução que pode ser dada por um município isoladamente.
"O mais importante é encontrar, com as autoridades, a melhor resposta a esta situação".
De acordo com a prefeitura, estima-se que quase quatro mil índios waraos estejam no Brasil atualmente.
O que diz a prefeitura de Hortolândia?
A prefeitura de Hortolândia informou, em nota, que todos os integrantes do grupo warao foram inscritos no Cadastro Único (CadUn), por meio do qual podem ter acesso às redes de saúde e assistência social, além de programas federais.
As crianças, segundo a gestão municipal, estão matriculadas em escolas da cidade.
*Sob a supervisão de Fernando Pacífico
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